quarta-feira, 7 de março de 2012

O MUNDO VAI ACABAR

MUNDO VAI ACABAR





Quiiripá das Antas é uma cidade calma e tranqüila aos pés do Vulcão Vopurunda, que solta fumaça e cinza a cada dois ou três meses. Nunca foi atingida por uma lava, e jamais foi vitima de um tsunami. Todo mundo se diverte, com a torre da prefeitura, tombada de lado, após o último terremoto, melhor dizendo, uma ameaça de.., pois, alem da torre tombada, da estatua do santo padroeiro rachada, nada aconteceu de mais grave. Todos confiam na sorte e nas providencias do prefeito, sem falar na providencia divina que jamais falhou por aquelas bandas. Um dia, faz já algum tempo, apareceu na cidade um beato, envergando batina marrom à moda dos padres franciscanos. Tinha uma barba solene e voz tonitruante. Tirou o sossego daquela gente pacata, ao anunciar o fim do mundo: -“O mundo vai acabar pessoal, e não demorará muito”. Misturando religião, profecia barata e muita falação, começou a convencer a população da iminência do fim. Afirmava ele, que tudo seria destruído numa bola de fogo, que se transformaria em fumaça, levando o pecado deste mundo, para os confins do universo, onde a alma dos maus, penariam para sempre e a dos bons, gozariam das delicias do paraíso. No começo, só o pessoal pobre e iletrado das periferias acreditavam, mas logo depois, até o professor Quartim Macedo, formado em matemática e filosofia, passou a acreditar. Acho mesmo que até o vigário da igreja matriz também acreditou no homem, que conseguiu o milagre da unanimidade, para assunto tão grave. Dia 18 de dezembro, já quase verão, seria o último dia. Quinze dias antes da data marcada, ninguém chorava, não havia qualquer manifestação de medo ou pânico ante a chegada do fim do mundo. Pelo contrário, um certo quê de misterioso ornava o semblante da maioria. Ostentavam um sorriso misterioso como jamais se vira em toda a historia da cidade. Acho mesmo, que era a fisionomia do fim do mundo, na cara de todo mundo. Todos se visitavam com uma freqüência nunca vista, e logo se ficou sabendo o porque dos estranhos comportamentos: O mundo ia acabar,  “então vamos aproveitar”. Senhoras já avançadas na idade, saindo com garotos quase meninos de mãos dadas. Trocavam caricias desavergonhadas. Às escâncaras aconteciam coisas do começo ao fim da rua, do centro aos arrabaldes. Meninas virgens queriam se livrar dessa pecha, antes do fim do mundo, e foi um Deus nos acuda! Insultos insuspeitáveis; todos queriam desabafar e maguas adormecidas, Ressuscitaram, com acertos de contas dramáticos. O professor Domingos, diretor do Instituto de Educação, foi visto beijando o Major Zacarias na boca! O vigário, passava a maior parte do dia na zona;  Dona Zolma, a respeitável mãe do prefeito, passou a usar uma mini-saia escandalosa que jamais fora vista na cidade. Roubaram todo o estoque de perfumaria da farmácia do Seu Honório. O locutor da Rádio Cultura local, passou a irradiar currículos escabrosos,  denunciando “toda a verdade” da vida de personalidades locais; tudo proveniente de “fonte idônea e garantida”. Os mais religiosos faziam confissões públicas de seus pecados, já que o padre, na igreja, não era encontrado. Houveram também, muitas reconciliações, pedidos de perdão, prestação de contas. O dia fatídico amanheceu chuvoso, escuro. prenunciando um imenso toró, a última tempestade dessa terra. A cidade, deserta, parecia abandonada. Ninguém na rua. Veio a chuva forte com vento e trovão até o meio dia. Depois, abriu-se um sol quente, num dia luminoso, prenunciando verão.  Anoiteceu e o mundo não acabou. Ai sim, o horror se instalou. O que aconteceu depois, eu conto quando tiver coragem, pois a coisa foi feia. O fim do mundo para Quiripá das Antas foi trágico. Só adianto, que a população local, segundo pesquisas oficiais, reduziu-se à menos da metade.



JAIRO BRAZ










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