segunda-feira, 20 de janeiro de 2020


Eu já confessei por diversas vezes. Já revelei que gosto muito de uma bodega fuleira, desde que não lhe falte o charme necessário para minha instantânea adaptação. Sinto um estranho prazer em submeter-me àquelas lâmpadas brancas e agressivas que iluminam o avesso das pessoas. Os tipos fellinianos que habitam esses espaços são tão diversos e alguns chegam a ser assustadores. Parecem bonecos; estranhos fantoches mal acabados. Ultimamente tenho parado no Bar da Gaúcha bem na entrada da praia do Marimbondo.  É uma choça com ladrilhos assentados de viés, e azulejos estragados na parece repleta de fotos, folhinhas de mulher pelada, painel de recados e uma bela imagem da mãe Iemanjá, rainha do mar bastante cultuada por ali. Uma vela azul está permanentemente acesa, dando a impressão que nunca acaba. A proprietária, já avançada em anos, carrega na maquiagem sem nunca deixar de mostrar seus seios túrgidos e fartos, saltando dos ”soutiens” apertadíssimos. Uma figura empolgante me faz lembrar as madres superioras de conventos antigos. Muito autoritária. Com um simples olhar consegue expulsar do local o bêbado mais impertinente.
Ouço de tudo naquele lugar. Cada caso, cada noticia, cada mentira eu coleciono porque servirão de base para eu contar os meus casos e construir minhas crônicas. Pratico ali a antropofagia, copiando Mario de Andrade ou a gauchada que vampiriza ritmos alheios.
Um negão já completamente mamado, empunhando um grande pé de arruda recém colhido, procurou me convencer das qualidades medicinais daquela erva. Contou-me que curava feridas, dor de barriga, e regularizava as regras das mulheres solteiras e casadas. Ele não iria usá-la afirmou que quando voltasse para casa, iria plantar a erva para assegurar boa sorte para a família e livrar sua casa de olho gordo e mau olhado. O rapazinho de voz aguda, já completamente embriagado, insistia em afirmar que toca violino todas as noites antes de dormir e aos domingos, no culto da igreja presbiteriana.  Dois pescadores, um novo e outro velho, discutiam sobre os benefícios da catuaba. Uma bebida milagrosa que salva muita gente na hora H, e mantém a dureza da vida até depois de terminada a sessão. Tomando catuaba regularmente, se evitava as pírulas azuis e seus efeitos colaterais. Um pescador já bebido todas, exibia uma corvina no fundo da sacola, pescada à mão. Queria vendê-la por um preço bem abaixo de todas as peixarias do Brasil. Só depois de ter ido embora, e ao chegar em minha casa, fui assaltado por uma dúvida colossal: Será que contei alguma coisa? Falei alguma bobagem?! Eu não bebi…..mas não me lembrava de nada. Acho que estou mesmo ficando velho.

JAIRO BRAZ   

domingo, 6 de outubro de 2019


AS DIFERENÇAS

Aqui, por esse lugar, a gente fica entendo a diferença cultural entre as pessoas. Basta se deslocar a poucas centenas de quilômetros para perceber isso. Eu gosto de fazer longas caminhadas pelo período da tarde quando o sol está se escondendo. A beleza do sol poente é inegável. Emocionante contemplar os desenhos amarelo avermelhados que se formam no céu. É muito bonito. A revoada de araras, que em bando, passam por grandes alturas, chamam a atenção pela algaravia e a geometria de suas formações.  Já não é tão comum esse espetáculo da natureza, porque as araras estão perdendo o seu habitat. Salvo raríssimas exceções, as pessoas daqui não são simpáticas e muito menos sociáveis. A gentileza é falsa. Tão falsa que não faz questão alguma de se disfarçar; parece até que se orgulha de ser assim. É impressionante ver como as pessoas patrulham umas às outras, numa eterna comparação. Aqui é muito comum se perguntar: Quanto você ganha?  O senhor vive do quê? O senhor é casado, viúvo ou solteiro? E toda sorte de outras perguntas diretas sem qualquer cerimônia. Ser proprietário de uma caminhonete com tração nas 4 horas, é uma obsessão nesta cidade e região. Aqui se vê casas precárias, muito pobres quase caindo, mas com uma bem novinha guardada num arremedo de garagem. Nas casas mais ricas, não pode faltar um colossal portão de metal, arrematando uma cerca do mesmo porte. As casas ficam muito parecidas com jaulas. Jardins não existem sob nenhuma forma. Talvez pelo clima inclemente, mas acho mesmo que é por falta de gosto.  A maioria das residências ostentam pilhas de tijolos, telhas, janelas de demolição, garrafas. É uma tranqueira sem fim, aguardando que sejam utilizadas no futuro incerto. Tudo fica muito feio. A partir das 6 horas da manhã, os vizinhos disputam o som mais alto e ligam seus rádios no maior volume. Um festival de músicas “sertanejas” da pior qualidade, numa poluição sonora por demais irritante. Parece que cada casa tem um galo cantor anunciando com entusiasmo o nascer de cada dia. Acho que existem mais de mil galos cantores aqui por perto. Ninguém prende seus cachorros em casa. Tenho a impressão que milhares de cachorros guaipecas, gostam de morar na rua. Meu irmão, que me hospeda, possui sete vira latas muito abusados além dos papagaios e centenas de galinhas espalhadas pelos arredores. No final das manhãs, no verão, já ninguém sai de casa a partir das 11 horas. Por isso as cidades são arborizadas para facilitar a vida dos habitantes dessas paragens. Depois dessa hora, o asfalto, quase sempre de má qualidade amolece sob o sol. Apesar dos grandes rios e represas da redondeza, os pernilongos não chegam a ser um problema. Dá para conviver com eles. Os sorvetes daqui não são obras de arte, mas são muito bons e gostosos. Não tem fim a lista de sabores exóticos e deliciosos. A comida também é boa e pouco variada. Come-se pequi misturado ao arroz, feijão, carne seca; essa fruta cheirosa, empresta um sabor especial a quase tudo que se come por aqui.
Assim vou exercitando minha observação que está ficando mais aguçada, porque estou aprendendo extrair beleza do feio. Talvez eu esteja mesmo aprendendo a escolher, apreciando o menos feio. Estou pensando em escrever um livro abordando esse tema, cujo título já escolhi: “a relatividade da beleza” ou então, “a estética possível”.

JAIRO BRAZ – de um lugar no Mato Grosso do Sul em agosto de 2018.   


A NOSSA FAMILIA IMPERIAL

A população brasileira, desde a proclamação da república, esquece a cada ano, que nós somos o único país das Américas, que possui uma família real, digo imperial. Sim, nós temos uma família imperial, muito respeitada e cultuada por todos em face de suas qualidades morais e intelectuais, principalmente pelos monarquistas que crescem em número cada vez mais e muito rapidamente. Hoje o movimento monarquista é o que mais cresce no Brasil. Mas por que ela é tão desconhecida? A resposta é simples: desde a proclamação da república até a promulgação da constituição de 1988, era crime falar em monarquia em nosso país. Isso em virtude da cláusula pétrea constante de todas as constituições que já vigoraram aqui, com exceção da atual promulgada em 1988. Essa quebra, deveu-se a iniciativa de nosso príncipe herdeiro, Dom Luiz de Orleans e Bragança, que enviou um ofício aos deputados constituintes, solicitando que a cláusula pétrea fosse derrubada, o que propiciou aos monarquistas saírem da clandestinidade. Em seguida, cobrou da assembleia constituinte, o cumprimento da promessa feita em 1889, quando do golpe republicano, que prometia uma consulta ao povo sobre a continuação da monarquia ou não. Esse plebiscito foi então realizado em 1993 com 104 anos de atraso. Ora, esses 104 anos, juntamente com todo um aparato destinado a apagar da memória nacional, os gloriosos anos do primeiro e segundo reinado, fizeram com que se dissipasse da memória nacional, que por sinal é fraquíssima, todo o conhecimento a respeito da gloriosa monarquia brasileira. Afinal, quem é a família imperial brasileira? Posso garantir que ela é nobilíssima, antiguíssima e descende de reis, nobres, santos e guerreiros. Nossa família imperial, descende por linhagem materna do primeiro Conde de Wittelsbach seu 25º avô que deu origem a família real do reino da Baviera hoje incorporado à Alemanha. Família que tem uma linhagem de 936 anos. São quase 1.000 anos de sucessão de pai para filho, até 2019.
Por linhagem paterna, a família imperial brasileira descende de Roberto, seu 34º avô, que foi chanceler do Rei Clotário III da França nos anos 600, século VII da era cristã. São 34 gerações em linha direta de reis da dinastia Capeto, Bourbon, Orleans, Bragança. Dom Pedro II pertencia a Dinastia de Bragança, assim como sua filha Dona Isabel, que ao casar-se com o Conde D`Eu, que sendo Orleans, deu origem a nova dinastia, essa bem  brasileira os Orleans e Bragança. Não deixa de ser um belo e nobre exercício pesquisar sobre as origens da nossa família imperial. Irão descobrir que ela é uma das mais antigas do mundo ocidental, é enorme, e considerada muito mais real que algumas das dinastias europeias, e que nossos príncipes são aparentados com praticamente todas as dinastias do ocidente, reinantes ou não. Isso nos enche de orgulho, porque a existência de nosso Brasil, um verdadeiro continente, a união que garante sua grandeza territorial, nossa história belíssima, se devem a essa família que existe em sucessão contínua há mais de 1.000 anos. Essa antiguidade é que dá legitimidade a ela. Essa legitimidade, afasta a alegação estúpida de muitos: - “monarquia!? Só se eu for o rei” Geralmente quem diz isso, não sabe sequer o nome de seus avós.
JAIRO BRAZ DE SOUZA – junho de 2019


sábado, 5 de outubro de 2019

A Pesada Emoção da Beleza


A pesada emoção da beleza
Outro dia, quarta feira muito calorenta, saí de casa para um concerto na Igreja São Luiz. Não conhecia a igreja, pois localizada num morro, o acesso sempre me foi estranho. Mesmo assim, resolvi enfrentar a ladeira para chegar lá. Fui sem saber direito o que me aguardava. Cheguei muito mais cedo, e qual minha surpresa com a modernosa concepção arquitetônica do templo. Repleto de azulejos dourados, a meu ver, oscilava entre o gosto brega e o inusitado. Gostei do ar condicionado e acabei por assistir a missa das 19 horas com a presença mínima de senhoras beatas bastante típicas das missas nesses horários. As 20 horas a igreja começou a ficar lotada de gente bonita: senhoras de meia idade. Chegaram também muitos jovens pouco acima da mediocridade medonha, bastante comum por aqui. Haveria apresentação de música sacra do medieval até o barroco europeu. Cinco rapazes do grupo “cantus firmus”, tocando instrumentos de época, como alaúde, flautas, tímpanos e címbalos, cantaram o repertório programado. Abusaram da arte, da técnica. da beleza e perfeição e me conduziram para o mundo onde a emoção e a beleza absoluta nos  faz aflitos e angustiados. Um querido amigo meu, recentemente falecido, afirmava com muita certeza, que toda beleza dói. Ele estava certo. Tentei o tempo todo identificar o que estava sentindo, e apelei para tudo o que sabia a respeito daquilo. Cheguei a conclusão que a beleza da arte, seja sob o aspecto moral, estético ou espiritual é muito difícil de ser explicada, mas fácil de ser sintetizada: a beleza é a perfeição das coisas exteriores, e provoca um sentimento profundo dentro do nosso espírito. Acaba por ser fonte de prazer para os sentidos e para a nossa inteligência. Foi muito bom e bonito.

JAIRO BRAZ – natal de 2018

sexta-feira, 14 de agosto de 2015

CERTA VEZ



Certa vez, eu estava andejando pela ruas da vila onde morava, sem paragem e desinteressado. Ensimesmado e pensando na vida,  vi uma ratazana muito grande e com bastante quilagem. A danada parecia uma bola de graxa de tão gorda! A fortalicia do seu porte assustava até o gato mais valentiado de dos telhados próximos. A coisa feia, tinha um guinchado forte, com um poder de assustagem medonho. Todo mundo ficou amedado com aquilo. O medo e grande. Porém, o Betilho, menino que não era abestado nem nada, ofereceu-se a matar a coisa, e,  com um única tijolagem na cabeça do monstro esmigalhou os miolos do bicho que morreu na hora!. Esclareceu a todos que a ratazana faz transmitaçaõ de doenças de varias tipagens: febre, caganeira, dormição e muitas outras.
Minha vizinha, dona Racunda, mulher de muito estudo, falou que essas coisas, só se aconteciam, nos lugares onde o bicho homem já tinha estragado e espandongado o ambiente, e onde as pessoas fazem coisas que não deveriam fazer como, por exemplo, criar galinhas no terreiro de casa. Ora vejam: se tem tanta galinha barata nos supermercados, nas vendas, nas bodegas, nas feiras, etc., porque então as pessoas teriam que criar galinhas no terreiro? Quando elas colocam ração e outras comidas, para elas, as galinhas, os ratos, ratazanas, gambás ficam excitados com o cheiro, e se aprochegam para tirar uma casquinha, e comer as sobras das galinhas. Atrás dos ratos vem as cobras que ficam interessadas em comê-los. Outro dia uma cobra muito feia e de grande metragem, isto é, muito comprida apareceu no quintal do seu Bartolomeu e assustou todo o mundo que mora por perto.  Essas coisas erradas, as pessoas não deveriam fazer, mas fazem. Dona Racunda falou que isso é coisa de pobre, de gente que tem cabeça de pobre e que não tem bezunto, que não pensa porque não tem juízo das coisas.
Mas a problemática da vila não é só de ratoagem, cobraiada, e galinhada. Tem também o caso da cachorragem. Tem muito cachorro por aqueles lados. Os cachorros latem de dia, por todos os motivos. Latem de noite também por todos e qualquer motivo. Ninguém consegue dormir direito por causa da latição dos caninos. Já aconteceram muitas brigas, demandas e questões por causa disso. Tem também o caso das crianças que choram a noite. Acho que naquela vila, é onde nascem mais crianças em todo o Brasil. Tem mulher, que, de uma barrigada só, pari três bebês com muita saúde e que choram dia e noite. A sorte é que a terra por aqueles lados, é muito gorda, e dá qualquer coisa. Nem precisa plantar parece que as frutas, verduras, e mantimentos nascem sozinhos.  Deus ajuda muito aquele povo nesse assunto de comida. Ninguém passa fome.

sexta-feira, 7 de agosto de 2015

PAISAGEM DE FLORIANÓPOLIS PINTADA PELO JAIRO BRAZ

paisagem de Florianópolis, executada pelo mestre JAIRO BRAZ

A REPUBLICA DA CAMPANHA



A REPÚLICA DA CAMPANHA

Ao contrário do que imaginava Eça de Queirós nas sátiras de seu tempo, a República Brasileira  não “nasceu pronta” Com seu humor genial e cáustico, o mestre de Os Maias, enxergou com seu pince-nez uma república prontinha para ser inaugurada pelo golpe de espada do Marechal Deodoro. E ironizou  a “criança” que substituía o império, numa bem humorada crônica para o “Diário de Noticias”:
-A surpreendente facilidade com que a  República se substituiu ao Império se deve a circunstância de que há muito, no Brasil, nada mais separava a República da Monarquia. Até o imperador tinha se “desemperializado” a tal ponto que entre um e outro regime já não havia senão um fio. Tão gasto e frouxo que, para cortá-lo, de um golpe brusco, bastou a rombuda espada de um marechal caquético.
- “Revolução”, no Brasil, mais parece uma transformação como nas mágicas populares.    Deodoro dá um sinal com a espada  - e pronto. Imediatamente, sem choque e sem ruído, cenas pintadas por Pedro Américo deslizam rumo a realidade.  Surge uma República. Toda completa e apetrechada. Com bandeira, hino, selo dos Correios e a benção do Arcebispo. Sem atritos e sem confusão. Autoinstalada, essa República começa imediatamente a funcionar...
A rigor, a República Brasileira nunca ficou pronta. Já foi do “café com leite”, República Velha, República Nova,  República do Sarney, República das Alagoas (Floriano, Collor e Renan Calheiros) e, por último República dos Mensaleiros. Agora é a vez da República da chantagem: o PMDB, com metade do governo, renova a fatura e manda para a presidente  Dilma uma nova conta. E, como a primeira medida, entraram em greve; esticaram o carnaval em 13 dias. Trabalham para não trabalhar...
No Brasil, tudo o que interessa é o seguinte: dinheiro para a campanha. No dia seguinte à vitória de um dos seus 32 (!) partidos, começa o terceiro turno: o dos tesoureiros dos partidos, farejando o segredo do cofre...
Há, nestes trópicos caricaturais, uma instituição chamada “base aliada”. Nada mais desafinada do que a tal base. Uma carniça na forma de cargos oferecidos pelo governo em troca de apoio legislativo.
A cada votação, os descontentes apresentam uma nova conta, e deixam os “aliados” na mão.
Se fosse fundar de novo a República, com base nesse movediço alicerce dos “aaliados”, o Marechal Deodoro usaria o talão de cheques  - nunca a espada.
Sergio da Costa Ramos, in Diário Catarinense
Nosso festejado cronista, retratou muito bem a base podre de nossa república podre