sexta-feira, 14 de agosto de 2015

CERTA VEZ



Certa vez, eu estava andejando pela ruas da vila onde morava, sem paragem e desinteressado. Ensimesmado e pensando na vida,  vi uma ratazana muito grande e com bastante quilagem. A danada parecia uma bola de graxa de tão gorda! A fortalicia do seu porte assustava até o gato mais valentiado de dos telhados próximos. A coisa feia, tinha um guinchado forte, com um poder de assustagem medonho. Todo mundo ficou amedado com aquilo. O medo e grande. Porém, o Betilho, menino que não era abestado nem nada, ofereceu-se a matar a coisa, e,  com um única tijolagem na cabeça do monstro esmigalhou os miolos do bicho que morreu na hora!. Esclareceu a todos que a ratazana faz transmitaçaõ de doenças de varias tipagens: febre, caganeira, dormição e muitas outras.
Minha vizinha, dona Racunda, mulher de muito estudo, falou que essas coisas, só se aconteciam, nos lugares onde o bicho homem já tinha estragado e espandongado o ambiente, e onde as pessoas fazem coisas que não deveriam fazer como, por exemplo, criar galinhas no terreiro de casa. Ora vejam: se tem tanta galinha barata nos supermercados, nas vendas, nas bodegas, nas feiras, etc., porque então as pessoas teriam que criar galinhas no terreiro? Quando elas colocam ração e outras comidas, para elas, as galinhas, os ratos, ratazanas, gambás ficam excitados com o cheiro, e se aprochegam para tirar uma casquinha, e comer as sobras das galinhas. Atrás dos ratos vem as cobras que ficam interessadas em comê-los. Outro dia uma cobra muito feia e de grande metragem, isto é, muito comprida apareceu no quintal do seu Bartolomeu e assustou todo o mundo que mora por perto.  Essas coisas erradas, as pessoas não deveriam fazer, mas fazem. Dona Racunda falou que isso é coisa de pobre, de gente que tem cabeça de pobre e que não tem bezunto, que não pensa porque não tem juízo das coisas.
Mas a problemática da vila não é só de ratoagem, cobraiada, e galinhada. Tem também o caso da cachorragem. Tem muito cachorro por aqueles lados. Os cachorros latem de dia, por todos os motivos. Latem de noite também por todos e qualquer motivo. Ninguém consegue dormir direito por causa da latição dos caninos. Já aconteceram muitas brigas, demandas e questões por causa disso. Tem também o caso das crianças que choram a noite. Acho que naquela vila, é onde nascem mais crianças em todo o Brasil. Tem mulher, que, de uma barrigada só, pari três bebês com muita saúde e que choram dia e noite. A sorte é que a terra por aqueles lados, é muito gorda, e dá qualquer coisa. Nem precisa plantar parece que as frutas, verduras, e mantimentos nascem sozinhos.  Deus ajuda muito aquele povo nesse assunto de comida. Ninguém passa fome.

sexta-feira, 7 de agosto de 2015

PAISAGEM DE FLORIANÓPOLIS PINTADA PELO JAIRO BRAZ

paisagem de Florianópolis, executada pelo mestre JAIRO BRAZ

A REPUBLICA DA CAMPANHA



A REPÚLICA DA CAMPANHA

Ao contrário do que imaginava Eça de Queirós nas sátiras de seu tempo, a República Brasileira  não “nasceu pronta” Com seu humor genial e cáustico, o mestre de Os Maias, enxergou com seu pince-nez uma república prontinha para ser inaugurada pelo golpe de espada do Marechal Deodoro. E ironizou  a “criança” que substituía o império, numa bem humorada crônica para o “Diário de Noticias”:
-A surpreendente facilidade com que a  República se substituiu ao Império se deve a circunstância de que há muito, no Brasil, nada mais separava a República da Monarquia. Até o imperador tinha se “desemperializado” a tal ponto que entre um e outro regime já não havia senão um fio. Tão gasto e frouxo que, para cortá-lo, de um golpe brusco, bastou a rombuda espada de um marechal caquético.
- “Revolução”, no Brasil, mais parece uma transformação como nas mágicas populares.    Deodoro dá um sinal com a espada  - e pronto. Imediatamente, sem choque e sem ruído, cenas pintadas por Pedro Américo deslizam rumo a realidade.  Surge uma República. Toda completa e apetrechada. Com bandeira, hino, selo dos Correios e a benção do Arcebispo. Sem atritos e sem confusão. Autoinstalada, essa República começa imediatamente a funcionar...
A rigor, a República Brasileira nunca ficou pronta. Já foi do “café com leite”, República Velha, República Nova,  República do Sarney, República das Alagoas (Floriano, Collor e Renan Calheiros) e, por último República dos Mensaleiros. Agora é a vez da República da chantagem: o PMDB, com metade do governo, renova a fatura e manda para a presidente  Dilma uma nova conta. E, como a primeira medida, entraram em greve; esticaram o carnaval em 13 dias. Trabalham para não trabalhar...
No Brasil, tudo o que interessa é o seguinte: dinheiro para a campanha. No dia seguinte à vitória de um dos seus 32 (!) partidos, começa o terceiro turno: o dos tesoureiros dos partidos, farejando o segredo do cofre...
Há, nestes trópicos caricaturais, uma instituição chamada “base aliada”. Nada mais desafinada do que a tal base. Uma carniça na forma de cargos oferecidos pelo governo em troca de apoio legislativo.
A cada votação, os descontentes apresentam uma nova conta, e deixam os “aliados” na mão.
Se fosse fundar de novo a República, com base nesse movediço alicerce dos “aaliados”, o Marechal Deodoro usaria o talão de cheques  - nunca a espada.
Sergio da Costa Ramos, in Diário Catarinense
Nosso festejado cronista, retratou muito bem a base podre de nossa república podre

CARISSIMA

Carissima,
O seu Júlio era de uma família de pessoas extremamente ignorantes. Era uma família de retirantes. Seus pais nasceram na segunda metade do século XIX no sertão da Bahia. Dá pra ter uma ideia do que isso significa. Seu Virgílio, era um aventureiro viajava muito, mas não tinha um objetivo definido. Dona Ana Maria era sua segunda esposa. Quando casado da primeira vez, ele perambulava por todo o norte de Minas e sertão da Bahia. Essa característica ele nunca perdeu. Era nômade, espirito de cigano. Ele veio para São Paulo, com Ana Maria, acho que casados somente no religioso. Veio se casar muito depois em Nova Aliança, sertão do Estado de São Paulo. Sempre foram rurais e jamais conheceram uma cidade grande. Eram analfabetos. Tinham uma cultura própria até um tanto bonita. Era uma família que tinha marcas culturais e características nordestinas muito bonitas, e próprias de classes superiores. Em algum momento o elo se perdeu.
Seu Júlio abraçou uma profissão independente de vocação, mais por necessidade e pela ocasião. Vivia servindo a sociedade local, e sofria de um enorme complexo de inferioridade enorme, porque não conseguia se expressar e desde criança viveu enfrentando enormes dificuldades financeiras. Não conhecia nada do mundo, nada além da curva da estrada. Não havia televisão, não havia rádio, não havia jornais pelo menos regularmente. Sabia o que ele ouvia falar no salão do barbeiro, na igreja e pelos comentários das pessoas nas ruas. Por certo, ele ouvia o galo cantar, mas nunca descobriu aonde ele poderia estar. Não tinha convicções politicas próprias por esses motivos todos. Viveu grande parte da vida (15 anos) sob a ditadura Vargas, quando não se podia falar de politica. Viveu 20 anos sob a ditadura militar, onde a opressão era a mesma. Ao todo viveu sob regimes ditatoriais durante 35 anos de sua vida; quase toda sua mocidade. Viveu a segunda guerra mundial. Jamais ele se adaptou perfeitamente à vida na capital.
Viveu apaixonado pela dona Jacyra por toda a vida. Nunca teve outra mulher e com certeza, foi fiel, fidelíssimo. Não sei se por convicção ou falta de oportunidade. Também não sei com certeza, se foi por amor ou dependência, mas ele tinha princípios morais rígidos. Nunca ouvi falar ou tive conhecimento de qualquer ato ação ou reação menos recomendáveis de sua parte. Não deu calote em ninguém, tinha moral e comportamento moral acima de qualquer critica. Com certeza ele pensava, sentia e era sensível, mas não sabia se expressar e isso, fazia com que acumulasse uma pressão enorme e suas idiossincrasias, que às vezes explodia, mas não era um homem raivoso, vingativo e amargo. Teve uma vida digna e uma velhice muito digna também. Eu acredito na Providencia Divina, que o poupou de humilhações e dores; tanto ele como Da. Jacyra. Foram bastante abençoados por Deus durante toda a vida e também na morte. Se não tiveram sucesso financeiro, tiveram dignidade até o fim.
Após a segunda guerra, em 1945, o mundo passou por transformações assombrosas. Acabou a ditadura Vargas, o rádio se popularizou, e na década de 50 as casas passaram a ter geladeiras, ferros elétricos e automóveis. Imagine essas novidades chegando ao interior a preços proibitivos. Só os ricos podiam comprar. Imagine a carga de preconceitos, de mandamentos religiosos, opressão politica e social, tudo aliado à falta de informação, onde toda a fonte, toda a autoridade, todo o conhecimento e status social e politico estava na mão do prefeito, do padre e do delegado, e eles, sempre a serviço dos poderosos do local e do país........
De onde o Sr. Júlio poderia tirar conhecimento para transmitir aos filhos? Ele brigava comigo, porque eu nunca tive paciência para ensiná-lo a escrever melhor. Ele tinha ânsia de aprender; vivia rabiscando jornais, me parece que só a Maria Clara tinha paciência para isso. Eu me
lembro, quando criança da dificuldade que ele e dona Jacira tiveram para entender e escrever a palavra sanduiche. Eles não conheciam a palavra. Antigamente falava-se: pão com “mortandela”, pão com queijo, pão com ovo...etc. Ficaram o dia inteiro discutindo o assunto, até que apareceu um vizinho que os esclareceu sobre a nova e desconhecida palavra. Como esse casal poderia orientar os estudos dos seis filhos?! Impossível. O quê eles sabiam sob formação profissional, profissões adequadas à cada filho, oportunidades de emprego e negócios? Absolutamente nada. Sempre nadaram em aguas turvas e caminharam dentro da nevoa da ignorância e falta de visão. Não tiveram culpa. Nenhum filho desviado do bom caminho, nenhum filho drogado, nenhuma filha prostituta. Formaram-nos no que podiam. Lutaram desesperadamente pela sobrevivência. Tinham que comprar o almoço do dia seguinte para oito pessoas, pagar o aluguel no fim do mês. E se alguém ficasse doente? Cruz credo!!! Deus nos livrou desse infortúnio. Tivemos muito menos sofrimento, que a grande maioria das famílias de nossa condição tiveram. Faltou-nos um timoneiro como gostaríamos de ter tido. Tivemos o que foi possível. Senão por aguas cristalinas, ele evitou choques contra as pedras negras da vida. Deixou os serviços auxiliares, por conta de Da. Jacyra, que também fez o que sabia e podia. Todo o resto foi questão de sorte, da qual não podemos nos queixar.
Até hoje, o povo brasileiro não é politizado. Não sabe nada de politica, porque historicamente nunca, jamais participou dela e dos acontecimentos marcantes da história nacional. Soma-se a isso a precária escolaridade. Com a proclamação da república, as oligarquias provincianas tomaram o poder. Lotearam a nação. Essa oligarquia é muito forte até hoje: A família Sarney se apossou do Maranhão; Antonio Carlos Magalhãese família, se apossaram da Bahia; Os Maia do Rio Grande do Norte; os Cavalcanti de Pernambuco, os Andradas de Minas Gerais, os Ramos de Santa Catarina, e assim por diante. Essas oligarquias se alimentam da ignorância e miséria do povo, para poderem se manter e sobreviver. Desde o final do século XIX se instalou no Brasil a pratica do Clientelismo e em seguida o Fisiologismo, pragas que até hoje não conseguimos nos livrar. Jamais houve no Brasil, qualquer possibilidade de desenvolvimento da cidadania. O povo vive da troca de favores, das benesses dos poderosos, da adulação e a mais porca politica paroquial. Isso explica.......
Continuo depois.....falta ainda muitas paginas para você ler.
JAIRO

CARISSIMO SIDINALDO



CARISSIMO SIDINALDO



Hoje, domingo muito bonito de março, acordei com uma indisposição danada. Não tive vontade de sair da cama, mas me sentia muito incomodado em ficar ali, com cara de doente sem fazer nada. Liguei a TV rodei o controle remoto de cima para baixo de baixo para cima, e não encontrei nada que me pregasse a atenção. Só porcarias e bobagens, nada de interessante. Procurei ler uma revista semanal, e não consegui. É horrível ler deitado. Pensei em sair correndo para missa das dez horas, como é do meu hábito. Não consegui. A preguiça foi mais forte, e ai piorou a coisa, pois fiquei com um incomodo sentimento de pecado duplo: pecado capital da preguiça e outro menos grave por faltar à missa. Tentei dormir mais um pouco, e quase consegui, não tivesse acordado sobressaltado por um sonho erótico inconfessável. Cruz Credo! De tão feio, não posso nem lembrar. Fiquei com o terceiro pecado e dos brabos: luxúria desta vez. O telefone tocou, atendi com mau humor; era um amigo me convidando para almoçar numa churrascaria, para comemorar o batizado do filho mais novo. Menti dando desculpa que estava doente, dor de barriga por intoxicação, etc. Meu amigo engoliu essa, acreditando em tudo. Mais um pecado, o da mentira, o quarto pecado do dia, e eu nem tinha saído da cama!  Lá pelas tantas, depois de muito muxoxo, de  espreguiçar, esticar, rolar eu resolvi sair daquela situação que já estava ficando chata. Levantei nuzinho, sem roupa. Fico tão feio sem roupa, peladão, que até a minha gata assustou-se. Miou dum jeito muito agoniado, que deu pena. Tomei um banho tão demorado, não só porque estava muito gostoso e agradável, mas porque tive preguiça de sair do chuveiro: acho que cometi mais um pecado, o quinto do dia e o segundo da mesma espécie: preguiça!
Caro Sidinaldo, tu não imaginas o que é isso: quero mais não quero, vou mais não vou, fico mais não fico, isso é horrível, mas foi assim que me senti por todo o dia. Estou de regime rigoroso para perder uns 15 quilos. Lembrei que a empregada tinha deixado uma bacalhoada monumental no forninho do fogão. Comi tudo e bebi um litro de vinho branco português, que guardava há tanto tempo, com uma voracidade escandalosa. Minha mãe sempre me ensinou não comer sem camisa. Eu estava comendo pelado, com muita gula e bebendo como um doente... Mais um pecado, o sexto do dia, e sem sair de casa.  O telefone tocou novamente; era uma voz anônima pedindo auxilio para uma instituição que protege crianças débeis mentais, carentes.....Eu com muita educação, mandei aquela voz para aquele lugar, e não dei auxilio para ninguém. Avareza, o sétimo pecado do dia.
Sidinaldo, porque as coisas são assim? Porque será que não consigo relaxar, no pior sentido do termo?  Não consigo me livrar do anjinho que aconselha o bem: levantar cedo, arrumar a cama, escovar os dentes, trabalhar com afinco, cumprir horário. No outro lado, o C
apiroto que diz: - fica na cama, durma um pouco mais, coma tudo o que vier pela frente, deixe a casa bagunçada. - Podes pensar e fazer coisa errada que não vai te acontecer nada e outros diabólicos conselhos.
Estou saindo agora, para espairecer um pouco. Acho que vou à missa, na igreja aqui em frente, para confessar os sete pecados que cometi neste domingo, sem sair de casa, sozinho. Eu lembrei então, o que meu pai dizia: - Não fiques sozinho, contigo mesmo, que o diabo aparece. – Acho que é verdade. O velho estava certo.

JAIRO BRAZ DE SOUZA – MARÇO DE 2006




               



            




O ESTRANHO


O ESTRANHO

Quando de minha adolescência, meu pai conheceu um estranho recém chegado em nossa cidade. Desde o principio, meu pai ficou fascinado pelo estranho, esse encantador personagem tanto que foi levado por ele a morar conosco, em nossa casa convivendo intimamente com nossa família. O estranho imediatamente aceitou e nunca mais saiu. Passou a conviver conosco. Nunca ficou muito claro, o lugar que ele ocupava em minha família, mas em minha mente juvenil, já estava instalado em lugar muito especial.
Na verdade, meus pais eram os instrutores complementares. Minha mãe me ensinava o que era bom e o que era mau, e ditava regras de comportamento social. Meu pai ensinava os bons princípios e me ensinou a obedecer e ser honrado. Mas o estranho era o nosso narrador e contador de historias: mantinha-nos enfeitiçados por horas a fio, com aventuras, mistérios, comedias e novidades. Ele sempre tinha respostas para tudo e para qualquer coisa que quiséssemos saber acerca de política, história, ciência, artes......enfim, tudo. Conhecia tudo do passado, do presente e podia, sem erro, prever o futuro. Levou minha família ao primeiro jogo de futebol. Fazia-nos rir e fazia-nos chorar. O estranho nunca parava de falar, mas meu pai não se importava.
As vezes, minha mãe se levantava muito cedo e calada. Ficava só ela na cozinha, enquanto  todos nós ficávamos escutando o que o estranho tinha a nos dizer. As vezes minha mãe ficava por horas no jardim, como se estivesse procurando um pouco de paz e tranqüilidade. Penso até que rezava para que o estranho fosse embora de casa.
Meu pai dirigia nosso lar com rígidas convicções  e princípios morais. O estranho não se sentia obrigado a respeitá-las. Blasfêmias, palavrões e imprecações não eram permitidos em nossa casa, não só de nossa parte, como de amigos, parentes ou de qualquer um que nos visitasse. Entretanto, o estranho visitante, agora parte da família, usava de sua linguagem inapropriada, chula que até queimava meus ouvidos. Fazia meu pai se retorcer e minha mãe ruborizar. Meu pai nunca nos deu permissão para tomar álcool, mas o estranho nos animou a tentar e a tomar álcool sob qualquer pretexto. Fez com que o cigarro parecesse fresco, inofensivo e essencial ao sucesso. Charutos e cachimbos eram apresentados por ele, como símbolo de status. Falava livremente sobre sexo. Abordava detalhes constrangedores, e geralmente vergonhosos. Agora sei pelo que sou hoje, que o estranho influenciou por demais minha vida, meus modos e até na maneira de pensar. Foi criticado, mas ele nunca fez caso. Mesmo assim permaneceu em casa.
Passaram-se mais de cinqüenta anos, desde que o estranho veio para nossa família. Ele mudou muito, já não é tão fascinante. Continua lá, sempre a espera que alguém esteja disposto a escutá-lo, ou a fazer companhia. Seu nome?  TELEVISOR. Agora ele tem uma esposa que se chama COMPUTADOR. Já tiveram um filho que também é fascinante, chamado CELULAR e outro mais novo chamado TABLET. Não quero admitir, mas eles são os estranhos que se adonaram de minha casa e de nossas vidas. Não tem mais jeito.

DOMINGO



DOMINGO
Ontem, o domingo foi muito bonito e ensolarado, não combinava com minha indisposição. Não me sentia bem, dormi muito mal durante a noite anterior. Fui muito atormentado, pelas travessuras de um bando de sacis, que vindos não sei de onde, assoviaram, espantaram o cachorro e especialmente os  quatro cavalos da chácara onde moro. Eles amanheceram  com os  rabos amarrados um nos outros, e só depois de muito trabalho consegui desamarrá-los, restaurando a paz na estrebaria. Tentei não me amofinar, mas a dor de cabeça insistente, impediu que eu fosse  à missa, como faço habitualmente. Fiquei em casa. Como a ventania não cessava, achei que os sacis voltariam, porque o vento é o seu principal meio de transporte. Os danados, com uma perna só, usam o vento para se locomoverem, em especial nos redemoinhos que se formam com muita frequência por aqui. Sacis não fazem maldade, não são criaturas do mal, mas também não são do bem. Passam o tempo todo fazendo traquinagens, folias, são zombeteiros e não perdem a oportunidade de azucrinar a paciência dos seres humanos. Como não melhorava, decidi visitar Dona Honória, famosa benzedeira que há décadas atende a população aqui da cidade. Ela é uma velha sábia, acolhedora e muito competente naquilo que faz. Ela tira como que por encanto, qualquer maleficio que nos ataquem: tira quinzumba, ziquizila, nhaca, olho gordo, mal olhado, inveja, espanta encostos de todos os tipos, inclusive urucubaca africana, talvez a mais séria entre todas. Dona Honória, a falta de arruda, usou na benzedura, uns grãos de milho, mergulhados em agua subterrânea fluida meia hora antes do ritual.  De uma chispa, arregalou os olhos e sentenciou: Meu fio, ocê ta cum maronha misturada com chunça e isso é mal sinal. Ocê num tá bem não... Eu ouvi o diagnóstico com muito susto, pois jamais havia ouvido falar nessa maldade que me acometia. Foram dois dias de extrema ansiedade, até que eu voltasse à nova consulta, pois ela teria que consultar Dona Pomba, uma entidade de esquerda,  muito conhecida, mas que só trabalha quando quer, de modos que nós os mortais, temos que nos sujeitar ao seu humor e desejos. Dona Honária foi logo falando: pois é zinfio, a maronha é mema coisa qui angústia de vivê. E chunça  é medo du futuro, é insegurança. Ocê ta memo é cum precisão de arranjá uma encrenca pra ti dá responso. Vai nu  futin que o piciricu aparece. Us fantasma, os saci vão imbora dipressinha.  Duas semanas depois, o velho Dito, que também é ligado a essas coisas, me esclareceu. Eu estava sofrendo de angustia de viver e com muitas incertezas, estava com medo do futuro. Era só ir passear que um namorico aconteceria. Eu estava precisando de motivação, aconchego e aprender a lidar com chamego de uma dona,  o que me devolveria o bem estar.
Estou indo ao footing  todos os dias. Estou sentindo melhoras. Quem sabe.....eu encontro o remédio de uma vez por todas.....Dona Honória é infalível.

CAFUNDÓPOLIS



CAFUNDÓPOLIS

Cafundópolis  fica na região do Fim da Picada. É uma cidade muito interessante, lugar onde a gente aprende a ser feliz mesmo que não queira. Tudo acontece por lá, e como já disse, aprendemos rapidamente a ver o lado bom das coisas. Durante os breves anos que morei nessa cidade, pude presenciar fatos, ver coisas, sentir emoções que em nenhum lugar da terra teria oportunidade. O clima era bom na maior parte do ano. Contudo, era comum registrarem-se  picos de temperatura: num dia, calor de 49º  noutro dia um frio de -8 – Uma das coisas boas, era que nessa oportunidade, as baratas morriam aos montes; não só baratas, mas mosquitos de toda ordem. Num dia estávamos todos nus na praia; noutro, esquentando o frio frente às gigantescas lareiras, infalíveis em todas a residências. Era possível fazer uma grande economia na compra dos indispensáveis inseticidas, vendidos no verão pelos olhos da cara. Eram caríssimos. Nos dias de calor tomávamos milhares de litros de sucos de tudo o que existe, e nos dias frios muito pinhão, carne de porco e vinho misturado com cachaça nem sempre da melhor qualidade, mas que esquentavam o corpo e a alma. As pessoas de Cafundóplis, não envelheciam. Num determinado momento, geralmente na flor da juventude, todo mundo estacionava no tempo nunca mais mudavam. A fisionomia era sempre a mesma. Eu mesmo, nos anos que por lá morei, não envelheci.  Não havia verão ou inverno, a primavera durava seis meses, e o outono outro tanto. Da estação das flores, se passava imediatamente para a estação das frutas. Ou tínhamos perfume de flores, odores misturados em profusão, ou o cheiro agradável das frutas, a despertar gulodices medonhas. As pessoas não tomavam refeição, dizia-se tomar uma barrigada de bananas, de bergamotas, de jabuticaba,  seja lá o que fosse. Contudo não existiam obesos e todos os habitantes do lugar, eram esbeltos e bonitos. Academias de musculação e ginástica, salões de cabelereiros, esteticistas e afins, não faziam carreira na cidade. Não prosperavam, porque não havia necessidade. Tudo e todos eram bonitos. Ninguém invejava ninguém; não se odiavam, não sentiam raiva e o sorriso permanente fazia alegria dos dentistas da terra, que ganhavam muito dinheiro embranquecendo dentes já por natureza, perfeitos. Médicos havia somente para curar indigestões, já que a comilança desbragada sem freios ou limites, provocava crises digestivas monumentais. A descomilança havia na mesma proporção, portanto a rede de esgotos estava sempre sobrecarregada, causando sérias preocupações ao prefeito e aos sanitaristas. Contudo, sem maiores problemas. Os namoros eram longos, pois os eternos jovens, não se preocupavam com casamento, tomada de decisões que encerrassem esse delicioso esporte. Conheci um rapaz que namorava a mesma jovem já há 25 anos, e nem pensavam em casar. Talvez por esse motivo a taxa de divórcios era altíssima. Policia existia somente para orientar o transito de pedestres, já que o automóvel jamais chegou à cidade por falta de estradas. Não havia telefones celulares e muito menos computadores. Porem esse estado de coisas não duraria para sempre: um dia chegou por lá, um bando de técnicos, operários e em poucas semanas normalizou tudo: ajeitaram as estações do ano, deram um jeito no tempo também. Trouxeram  educação alimentar e tomaram todas as providencias necessárias. Hoje as pessoas envelhecem, engordam, não sorriem, não descolam dos celulares. Vivem presas aos computadores, a policia tem muito trabalho e eu não moro mais lá. É uma cidade sem contrastes, sem gosto, padronizada e igual a todas as outras. Os moradores vivem angustiados, ansiosos, talvez a procura de alguma coisa que não sabem o quê.  Ali, a felicidade não é obrigatória como noutros tempos.
JAIRO BRAZ DE SOUZA