domingo, 6 de outubro de 2019


AS DIFERENÇAS

Aqui, por esse lugar, a gente fica entendo a diferença cultural entre as pessoas. Basta se deslocar a poucas centenas de quilômetros para perceber isso. Eu gosto de fazer longas caminhadas pelo período da tarde quando o sol está se escondendo. A beleza do sol poente é inegável. Emocionante contemplar os desenhos amarelo avermelhados que se formam no céu. É muito bonito. A revoada de araras, que em bando, passam por grandes alturas, chamam a atenção pela algaravia e a geometria de suas formações.  Já não é tão comum esse espetáculo da natureza, porque as araras estão perdendo o seu habitat. Salvo raríssimas exceções, as pessoas daqui não são simpáticas e muito menos sociáveis. A gentileza é falsa. Tão falsa que não faz questão alguma de se disfarçar; parece até que se orgulha de ser assim. É impressionante ver como as pessoas patrulham umas às outras, numa eterna comparação. Aqui é muito comum se perguntar: Quanto você ganha?  O senhor vive do quê? O senhor é casado, viúvo ou solteiro? E toda sorte de outras perguntas diretas sem qualquer cerimônia. Ser proprietário de uma caminhonete com tração nas 4 horas, é uma obsessão nesta cidade e região. Aqui se vê casas precárias, muito pobres quase caindo, mas com uma bem novinha guardada num arremedo de garagem. Nas casas mais ricas, não pode faltar um colossal portão de metal, arrematando uma cerca do mesmo porte. As casas ficam muito parecidas com jaulas. Jardins não existem sob nenhuma forma. Talvez pelo clima inclemente, mas acho mesmo que é por falta de gosto.  A maioria das residências ostentam pilhas de tijolos, telhas, janelas de demolição, garrafas. É uma tranqueira sem fim, aguardando que sejam utilizadas no futuro incerto. Tudo fica muito feio. A partir das 6 horas da manhã, os vizinhos disputam o som mais alto e ligam seus rádios no maior volume. Um festival de músicas “sertanejas” da pior qualidade, numa poluição sonora por demais irritante. Parece que cada casa tem um galo cantor anunciando com entusiasmo o nascer de cada dia. Acho que existem mais de mil galos cantores aqui por perto. Ninguém prende seus cachorros em casa. Tenho a impressão que milhares de cachorros guaipecas, gostam de morar na rua. Meu irmão, que me hospeda, possui sete vira latas muito abusados além dos papagaios e centenas de galinhas espalhadas pelos arredores. No final das manhãs, no verão, já ninguém sai de casa a partir das 11 horas. Por isso as cidades são arborizadas para facilitar a vida dos habitantes dessas paragens. Depois dessa hora, o asfalto, quase sempre de má qualidade amolece sob o sol. Apesar dos grandes rios e represas da redondeza, os pernilongos não chegam a ser um problema. Dá para conviver com eles. Os sorvetes daqui não são obras de arte, mas são muito bons e gostosos. Não tem fim a lista de sabores exóticos e deliciosos. A comida também é boa e pouco variada. Come-se pequi misturado ao arroz, feijão, carne seca; essa fruta cheirosa, empresta um sabor especial a quase tudo que se come por aqui.
Assim vou exercitando minha observação que está ficando mais aguçada, porque estou aprendendo extrair beleza do feio. Talvez eu esteja mesmo aprendendo a escolher, apreciando o menos feio. Estou pensando em escrever um livro abordando esse tema, cujo título já escolhi: “a relatividade da beleza” ou então, “a estética possível”.

JAIRO BRAZ – de um lugar no Mato Grosso do Sul em agosto de 2018.   

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