A REPÚLICA DA CAMPANHA
Ao contrário do que imaginava Eça de Queirós nas sátiras de
seu tempo, a República Brasileira não
“nasceu pronta” Com seu humor genial e cáustico, o mestre de Os Maias, enxergou com seu pince-nez uma república prontinha para
ser inaugurada pelo golpe de espada do Marechal Deodoro. E ironizou a “criança” que substituía o império, numa
bem humorada crônica para o “Diário de Noticias”:
-A surpreendente facilidade com que a República se substituiu ao Império se deve a
circunstância de que há muito, no Brasil, nada mais separava a República da
Monarquia. Até o imperador tinha se “desemperializado” a tal ponto que entre um
e outro regime já não havia senão um fio. Tão gasto e frouxo que, para cortá-lo,
de um golpe brusco, bastou a rombuda espada de um marechal caquético.
- “Revolução”, no Brasil, mais parece uma transformação como
nas mágicas populares. Deodoro dá um
sinal com a espada - e pronto.
Imediatamente, sem choque e sem ruído, cenas pintadas por Pedro Américo
deslizam rumo a realidade. Surge uma República. Toda completa e apetrechada.
Com bandeira, hino, selo dos Correios e a benção do Arcebispo. Sem atritos e
sem confusão. Autoinstalada, essa República começa imediatamente a funcionar...
A rigor, a República Brasileira nunca ficou pronta. Já foi do
“café com leite”, República Velha, República Nova, República do Sarney, República das Alagoas
(Floriano, Collor e Renan Calheiros) e, por último República dos Mensaleiros.
Agora é a vez da República da chantagem: o PMDB, com metade do governo, renova
a fatura e manda para a presidente Dilma
uma nova conta. E, como a primeira medida, entraram em greve; esticaram o
carnaval em 13 dias. Trabalham para não trabalhar...
No Brasil, tudo o que interessa é o seguinte: dinheiro para a campanha. No dia
seguinte à vitória de um dos seus 32 (!) partidos, começa o terceiro turno: o
dos tesoureiros dos partidos, farejando o segredo do cofre...
Há, nestes trópicos caricaturais, uma instituição chamada
“base aliada”. Nada mais desafinada do que a tal base. Uma carniça na forma de cargos oferecidos pelo governo em troca de
apoio legislativo.
A cada votação, os descontentes apresentam uma nova conta, e
deixam os “aliados” na mão.
Se fosse fundar de novo a República, com base nesse movediço
alicerce dos “aaliados”, o Marechal
Deodoro usaria o talão de cheques -
nunca a espada.
Sergio da Costa Ramos, in Diário Catarinense
Nosso festejado cronista, retratou muito bem a base podre de
nossa república podre
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