CARISSIMO SIDINALDO
Hoje, domingo muito bonito de
março, acordei com uma indisposição danada. Não tive vontade de sair da cama,
mas me sentia muito incomodado em ficar ali, com cara de doente sem fazer nada.
Liguei a TV rodei o controle remoto de cima para baixo de baixo para cima, e
não encontrei nada que me pregasse a atenção. Só porcarias e bobagens, nada de
interessante. Procurei ler uma revista semanal, e não consegui. É horrível ler
deitado. Pensei em sair correndo para missa das dez horas, como é do meu
hábito. Não consegui. A preguiça foi mais forte, e ai piorou a coisa, pois
fiquei com um incomodo sentimento de pecado duplo: pecado capital da preguiça e
outro menos grave por faltar à missa. Tentei dormir mais um pouco, e quase
consegui, não tivesse acordado sobressaltado por um sonho erótico
inconfessável. Cruz Credo! De tão feio, não posso nem lembrar. Fiquei com o
terceiro pecado e dos brabos: luxúria desta vez. O telefone tocou, atendi com
mau humor; era um amigo me convidando para almoçar numa churrascaria, para comemorar
o batizado do filho mais novo. Menti dando desculpa que estava doente, dor de
barriga por intoxicação, etc. Meu amigo engoliu essa, acreditando em tudo. Mais
um pecado, o da mentira, o quarto pecado do dia, e eu nem tinha saído da cama! Lá pelas tantas, depois de muito muxoxo,
de espreguiçar, esticar, rolar eu
resolvi sair daquela situação que já estava ficando chata. Levantei nuzinho,
sem roupa. Fico tão feio sem roupa, peladão, que até a minha gata assustou-se.
Miou dum jeito muito agoniado, que deu pena. Tomei um banho tão demorado, não
só porque estava muito gostoso e agradável, mas porque tive preguiça de sair do
chuveiro: acho que cometi mais um pecado, o quinto do dia e o segundo da mesma
espécie: preguiça!
Caro Sidinaldo, tu não imaginas o
que é isso: quero mais não quero, vou mais não vou, fico mais não fico, isso é
horrível, mas foi assim que me senti por todo o dia. Estou de regime rigoroso
para perder uns 15 quilos. Lembrei que a empregada tinha deixado uma bacalhoada
monumental no forninho do fogão. Comi tudo e bebi um litro de vinho branco
português, que guardava há tanto tempo, com uma voracidade escandalosa. Minha
mãe sempre me ensinou não comer sem camisa. Eu estava comendo pelado, com muita
gula e bebendo como um doente... Mais um pecado, o sexto do dia, e sem sair de
casa. O telefone tocou novamente; era
uma voz anônima pedindo auxilio para uma instituição que protege crianças
débeis mentais, carentes.....Eu com muita educação, mandei aquela voz para
aquele lugar, e não dei auxilio para ninguém. Avareza, o sétimo pecado do dia.
Sidinaldo, porque as coisas são
assim? Porque será que não consigo relaxar, no pior sentido do termo? Não consigo me livrar do anjinho que
aconselha o bem: levantar cedo, arrumar a cama, escovar os dentes, trabalhar
com afinco, cumprir horário. No outro lado, o C
apiroto que diz: - fica na cama,
durma um pouco mais, coma tudo o que vier pela frente, deixe a casa bagunçada.
- Podes pensar e fazer coisa errada que não vai te acontecer nada e outros
diabólicos conselhos.
Estou saindo agora, para
espairecer um pouco. Acho que vou à missa, na igreja aqui em frente, para
confessar os sete pecados que cometi neste domingo, sem sair de casa, sozinho.
Eu lembrei então, o que meu pai dizia: - Não fiques sozinho, contigo mesmo, que
o diabo aparece. – Acho que é verdade. O velho estava certo.
JAIRO BRAZ DE SOUZA – MARÇO DE
2006
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