sexta-feira, 7 de agosto de 2015

CAFUNDÓPOLIS



CAFUNDÓPOLIS

Cafundópolis  fica na região do Fim da Picada. É uma cidade muito interessante, lugar onde a gente aprende a ser feliz mesmo que não queira. Tudo acontece por lá, e como já disse, aprendemos rapidamente a ver o lado bom das coisas. Durante os breves anos que morei nessa cidade, pude presenciar fatos, ver coisas, sentir emoções que em nenhum lugar da terra teria oportunidade. O clima era bom na maior parte do ano. Contudo, era comum registrarem-se  picos de temperatura: num dia, calor de 49º  noutro dia um frio de -8 – Uma das coisas boas, era que nessa oportunidade, as baratas morriam aos montes; não só baratas, mas mosquitos de toda ordem. Num dia estávamos todos nus na praia; noutro, esquentando o frio frente às gigantescas lareiras, infalíveis em todas a residências. Era possível fazer uma grande economia na compra dos indispensáveis inseticidas, vendidos no verão pelos olhos da cara. Eram caríssimos. Nos dias de calor tomávamos milhares de litros de sucos de tudo o que existe, e nos dias frios muito pinhão, carne de porco e vinho misturado com cachaça nem sempre da melhor qualidade, mas que esquentavam o corpo e a alma. As pessoas de Cafundóplis, não envelheciam. Num determinado momento, geralmente na flor da juventude, todo mundo estacionava no tempo nunca mais mudavam. A fisionomia era sempre a mesma. Eu mesmo, nos anos que por lá morei, não envelheci.  Não havia verão ou inverno, a primavera durava seis meses, e o outono outro tanto. Da estação das flores, se passava imediatamente para a estação das frutas. Ou tínhamos perfume de flores, odores misturados em profusão, ou o cheiro agradável das frutas, a despertar gulodices medonhas. As pessoas não tomavam refeição, dizia-se tomar uma barrigada de bananas, de bergamotas, de jabuticaba,  seja lá o que fosse. Contudo não existiam obesos e todos os habitantes do lugar, eram esbeltos e bonitos. Academias de musculação e ginástica, salões de cabelereiros, esteticistas e afins, não faziam carreira na cidade. Não prosperavam, porque não havia necessidade. Tudo e todos eram bonitos. Ninguém invejava ninguém; não se odiavam, não sentiam raiva e o sorriso permanente fazia alegria dos dentistas da terra, que ganhavam muito dinheiro embranquecendo dentes já por natureza, perfeitos. Médicos havia somente para curar indigestões, já que a comilança desbragada sem freios ou limites, provocava crises digestivas monumentais. A descomilança havia na mesma proporção, portanto a rede de esgotos estava sempre sobrecarregada, causando sérias preocupações ao prefeito e aos sanitaristas. Contudo, sem maiores problemas. Os namoros eram longos, pois os eternos jovens, não se preocupavam com casamento, tomada de decisões que encerrassem esse delicioso esporte. Conheci um rapaz que namorava a mesma jovem já há 25 anos, e nem pensavam em casar. Talvez por esse motivo a taxa de divórcios era altíssima. Policia existia somente para orientar o transito de pedestres, já que o automóvel jamais chegou à cidade por falta de estradas. Não havia telefones celulares e muito menos computadores. Porem esse estado de coisas não duraria para sempre: um dia chegou por lá, um bando de técnicos, operários e em poucas semanas normalizou tudo: ajeitaram as estações do ano, deram um jeito no tempo também. Trouxeram  educação alimentar e tomaram todas as providencias necessárias. Hoje as pessoas envelhecem, engordam, não sorriem, não descolam dos celulares. Vivem presas aos computadores, a policia tem muito trabalho e eu não moro mais lá. É uma cidade sem contrastes, sem gosto, padronizada e igual a todas as outras. Os moradores vivem angustiados, ansiosos, talvez a procura de alguma coisa que não sabem o quê.  Ali, a felicidade não é obrigatória como noutros tempos.
JAIRO BRAZ DE SOUZA

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