sexta-feira, 7 de agosto de 2015

O ESTRANHO


O ESTRANHO

Quando de minha adolescência, meu pai conheceu um estranho recém chegado em nossa cidade. Desde o principio, meu pai ficou fascinado pelo estranho, esse encantador personagem tanto que foi levado por ele a morar conosco, em nossa casa convivendo intimamente com nossa família. O estranho imediatamente aceitou e nunca mais saiu. Passou a conviver conosco. Nunca ficou muito claro, o lugar que ele ocupava em minha família, mas em minha mente juvenil, já estava instalado em lugar muito especial.
Na verdade, meus pais eram os instrutores complementares. Minha mãe me ensinava o que era bom e o que era mau, e ditava regras de comportamento social. Meu pai ensinava os bons princípios e me ensinou a obedecer e ser honrado. Mas o estranho era o nosso narrador e contador de historias: mantinha-nos enfeitiçados por horas a fio, com aventuras, mistérios, comedias e novidades. Ele sempre tinha respostas para tudo e para qualquer coisa que quiséssemos saber acerca de política, história, ciência, artes......enfim, tudo. Conhecia tudo do passado, do presente e podia, sem erro, prever o futuro. Levou minha família ao primeiro jogo de futebol. Fazia-nos rir e fazia-nos chorar. O estranho nunca parava de falar, mas meu pai não se importava.
As vezes, minha mãe se levantava muito cedo e calada. Ficava só ela na cozinha, enquanto  todos nós ficávamos escutando o que o estranho tinha a nos dizer. As vezes minha mãe ficava por horas no jardim, como se estivesse procurando um pouco de paz e tranqüilidade. Penso até que rezava para que o estranho fosse embora de casa.
Meu pai dirigia nosso lar com rígidas convicções  e princípios morais. O estranho não se sentia obrigado a respeitá-las. Blasfêmias, palavrões e imprecações não eram permitidos em nossa casa, não só de nossa parte, como de amigos, parentes ou de qualquer um que nos visitasse. Entretanto, o estranho visitante, agora parte da família, usava de sua linguagem inapropriada, chula que até queimava meus ouvidos. Fazia meu pai se retorcer e minha mãe ruborizar. Meu pai nunca nos deu permissão para tomar álcool, mas o estranho nos animou a tentar e a tomar álcool sob qualquer pretexto. Fez com que o cigarro parecesse fresco, inofensivo e essencial ao sucesso. Charutos e cachimbos eram apresentados por ele, como símbolo de status. Falava livremente sobre sexo. Abordava detalhes constrangedores, e geralmente vergonhosos. Agora sei pelo que sou hoje, que o estranho influenciou por demais minha vida, meus modos e até na maneira de pensar. Foi criticado, mas ele nunca fez caso. Mesmo assim permaneceu em casa.
Passaram-se mais de cinqüenta anos, desde que o estranho veio para nossa família. Ele mudou muito, já não é tão fascinante. Continua lá, sempre a espera que alguém esteja disposto a escutá-lo, ou a fazer companhia. Seu nome?  TELEVISOR. Agora ele tem uma esposa que se chama COMPUTADOR. Já tiveram um filho que também é fascinante, chamado CELULAR e outro mais novo chamado TABLET. Não quero admitir, mas eles são os estranhos que se adonaram de minha casa e de nossas vidas. Não tem mais jeito.

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