O ESTRANHO
Quando de minha adolescência, meu
pai conheceu um estranho recém chegado em nossa cidade. Desde o principio, meu
pai ficou fascinado pelo estranho, esse encantador personagem tanto que foi
levado por ele a morar conosco, em nossa casa convivendo intimamente com nossa
família. O estranho imediatamente aceitou e nunca mais saiu. Passou a conviver
conosco. Nunca ficou muito claro, o lugar que ele ocupava em minha família, mas
em minha mente juvenil, já estava instalado em lugar muito especial.
Na verdade, meus pais eram os
instrutores complementares. Minha mãe me ensinava o que era bom e o que era
mau, e ditava regras de comportamento social. Meu pai ensinava os bons
princípios e me ensinou a obedecer e ser honrado. Mas o estranho era o nosso
narrador e contador de historias: mantinha-nos enfeitiçados por horas a fio,
com aventuras, mistérios, comedias e novidades. Ele sempre tinha respostas para
tudo e para qualquer coisa que quiséssemos saber acerca de política, história,
ciência, artes......enfim, tudo. Conhecia tudo do passado, do presente e podia,
sem erro, prever o futuro. Levou minha família ao primeiro jogo de futebol.
Fazia-nos rir e fazia-nos chorar. O estranho nunca parava de falar, mas meu pai
não se importava.
As vezes, minha mãe se levantava
muito cedo e calada. Ficava só ela na cozinha, enquanto todos nós ficávamos escutando o que o
estranho tinha a nos dizer. As vezes minha mãe ficava por horas no jardim, como
se estivesse procurando um pouco de paz e tranqüilidade. Penso até que rezava
para que o estranho fosse embora de casa.
Meu pai dirigia nosso lar com
rígidas convicções e princípios morais.
O estranho não se sentia obrigado a respeitá-las. Blasfêmias, palavrões e
imprecações não eram permitidos em nossa casa, não só de nossa parte, como de
amigos, parentes ou de qualquer um que nos visitasse. Entretanto, o estranho
visitante, agora parte da família, usava de sua linguagem inapropriada, chula
que até queimava meus ouvidos. Fazia meu pai se retorcer e minha mãe ruborizar.
Meu pai nunca nos deu permissão para tomar álcool, mas o estranho nos animou a
tentar e a tomar álcool sob qualquer pretexto. Fez com que o cigarro parecesse
fresco, inofensivo e essencial ao sucesso. Charutos e cachimbos eram
apresentados por ele, como símbolo de status. Falava livremente sobre sexo.
Abordava detalhes constrangedores, e geralmente vergonhosos. Agora sei pelo que
sou hoje, que o estranho influenciou por demais minha vida, meus modos e até na
maneira de pensar. Foi criticado, mas ele nunca fez caso. Mesmo assim
permaneceu em casa.
Passaram-se mais de cinqüenta
anos, desde que o estranho veio para nossa família. Ele mudou muito, já não é
tão fascinante. Continua lá, sempre a espera que alguém esteja disposto a
escutá-lo, ou a fazer companhia. Seu nome?
TELEVISOR. Agora ele tem uma esposa que se chama COMPUTADOR. Já tiveram
um filho que também é fascinante, chamado CELULAR e outro mais novo chamado
TABLET. Não quero admitir, mas eles são os estranhos que se adonaram de minha
casa e de nossas vidas. Não tem mais jeito.
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