Carissima,
O seu Júlio era de uma família de pessoas extremamente ignorantes. Era uma família de retirantes. Seus pais nasceram na segunda metade do século XIX no sertão da Bahia. Dá pra ter uma ideia do que isso significa. Seu Virgílio, era um aventureiro viajava muito, mas não tinha um objetivo definido. Dona Ana Maria era sua segunda esposa. Quando casado da primeira vez, ele perambulava por todo o norte de Minas e sertão da Bahia. Essa característica ele nunca perdeu. Era nômade, espirito de cigano. Ele veio para São Paulo, com Ana Maria, acho que casados somente no religioso. Veio se casar muito depois em Nova Aliança, sertão do Estado de São Paulo. Sempre foram rurais e jamais conheceram uma cidade grande. Eram analfabetos. Tinham uma cultura própria até um tanto bonita. Era uma família que tinha marcas culturais e características nordestinas muito bonitas, e próprias de classes superiores. Em algum momento o elo se perdeu.
Seu Júlio abraçou uma profissão independente de vocação, mais por necessidade e pela ocasião. Vivia servindo a sociedade local, e sofria de um enorme complexo de inferioridade enorme, porque não conseguia se expressar e desde criança viveu enfrentando enormes dificuldades financeiras. Não conhecia nada do mundo, nada além da curva da estrada. Não havia televisão, não havia rádio, não havia jornais pelo menos regularmente. Sabia o que ele ouvia falar no salão do barbeiro, na igreja e pelos comentários das pessoas nas ruas. Por certo, ele ouvia o galo cantar, mas nunca descobriu aonde ele poderia estar. Não tinha convicções politicas próprias por esses motivos todos. Viveu grande parte da vida (15 anos) sob a ditadura Vargas, quando não se podia falar de politica. Viveu 20 anos sob a ditadura militar, onde a opressão era a mesma. Ao todo viveu sob regimes ditatoriais durante 35 anos de sua vida; quase toda sua mocidade. Viveu a segunda guerra mundial. Jamais ele se adaptou perfeitamente à vida na capital.
Viveu apaixonado pela dona Jacyra por toda a vida. Nunca teve outra mulher e com certeza, foi fiel, fidelíssimo. Não sei se por convicção ou falta de oportunidade. Também não sei com certeza, se foi por amor ou dependência, mas ele tinha princípios morais rígidos. Nunca ouvi falar ou tive conhecimento de qualquer ato ação ou reação menos recomendáveis de sua parte. Não deu calote em ninguém, tinha moral e comportamento moral acima de qualquer critica. Com certeza ele pensava, sentia e era sensível, mas não sabia se expressar e isso, fazia com que acumulasse uma pressão enorme e suas idiossincrasias, que às vezes explodia, mas não era um homem raivoso, vingativo e amargo. Teve uma vida digna e uma velhice muito digna também. Eu acredito na Providencia Divina, que o poupou de humilhações e dores; tanto ele como Da. Jacyra. Foram bastante abençoados por Deus durante toda a vida e também na morte. Se não tiveram sucesso financeiro, tiveram dignidade até o fim.
Após a segunda guerra, em 1945, o mundo passou por transformações assombrosas. Acabou a ditadura Vargas, o rádio se popularizou, e na década de 50 as casas passaram a ter geladeiras, ferros elétricos e automóveis. Imagine essas novidades chegando ao interior a preços proibitivos. Só os ricos podiam comprar. Imagine a carga de preconceitos, de mandamentos religiosos, opressão politica e social, tudo aliado à falta de informação, onde toda a fonte, toda a autoridade, todo o conhecimento e status social e politico estava na mão do prefeito, do padre e do delegado, e eles, sempre a serviço dos poderosos do local e do país........
De onde o Sr. Júlio poderia tirar conhecimento para transmitir aos filhos? Ele brigava comigo, porque eu nunca tive paciência para ensiná-lo a escrever melhor. Ele tinha ânsia de aprender; vivia rabiscando jornais, me parece que só a Maria Clara tinha paciência para isso. Eu me
lembro, quando criança da dificuldade que ele e dona Jacira tiveram para entender e escrever a palavra sanduiche. Eles não conheciam a palavra. Antigamente falava-se: pão com “mortandela”, pão com queijo, pão com ovo...etc. Ficaram o dia inteiro discutindo o assunto, até que apareceu um vizinho que os esclareceu sobre a nova e desconhecida palavra. Como esse casal poderia orientar os estudos dos seis filhos?! Impossível. O quê eles sabiam sob formação profissional, profissões adequadas à cada filho, oportunidades de emprego e negócios? Absolutamente nada. Sempre nadaram em aguas turvas e caminharam dentro da nevoa da ignorância e falta de visão. Não tiveram culpa. Nenhum filho desviado do bom caminho, nenhum filho drogado, nenhuma filha prostituta. Formaram-nos no que podiam. Lutaram desesperadamente pela sobrevivência. Tinham que comprar o almoço do dia seguinte para oito pessoas, pagar o aluguel no fim do mês. E se alguém ficasse doente? Cruz credo!!! Deus nos livrou desse infortúnio. Tivemos muito menos sofrimento, que a grande maioria das famílias de nossa condição tiveram. Faltou-nos um timoneiro como gostaríamos de ter tido. Tivemos o que foi possível. Senão por aguas cristalinas, ele evitou choques contra as pedras negras da vida. Deixou os serviços auxiliares, por conta de Da. Jacyra, que também fez o que sabia e podia. Todo o resto foi questão de sorte, da qual não podemos nos queixar.
Até hoje, o povo brasileiro não é politizado. Não sabe nada de politica, porque historicamente nunca, jamais participou dela e dos acontecimentos marcantes da história nacional. Soma-se a isso a precária escolaridade. Com a proclamação da república, as oligarquias provincianas tomaram o poder. Lotearam a nação. Essa oligarquia é muito forte até hoje: A família Sarney se apossou do Maranhão; Antonio Carlos Magalhãese família, se apossaram da Bahia; Os Maia do Rio Grande do Norte; os Cavalcanti de Pernambuco, os Andradas de Minas Gerais, os Ramos de Santa Catarina, e assim por diante. Essas oligarquias se alimentam da ignorância e miséria do povo, para poderem se manter e sobreviver. Desde o final do século XIX se instalou no Brasil a pratica do Clientelismo e em seguida o Fisiologismo, pragas que até hoje não conseguimos nos livrar. Jamais houve no Brasil, qualquer possibilidade de desenvolvimento da cidadania. O povo vive da troca de favores, das benesses dos poderosos, da adulação e a mais porca politica paroquial. Isso explica.......
Continuo depois.....falta ainda muitas paginas para você ler.
JAIRO
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