DOMINGO
Ontem, o domingo foi muito bonito e ensolarado, não combinava
com minha indisposição. Não me sentia bem, dormi muito mal durante a noite
anterior. Fui muito atormentado, pelas travessuras de um bando de sacis, que
vindos não sei de onde, assoviaram, espantaram o cachorro e especialmente
os quatro cavalos da chácara onde moro.
Eles amanheceram com os rabos amarrados um nos outros, e só depois de
muito trabalho consegui desamarrá-los, restaurando a paz na estrebaria. Tentei
não me amofinar, mas a dor de cabeça insistente, impediu que eu fosse à missa, como faço habitualmente. Fiquei em
casa. Como a ventania não cessava, achei que os sacis voltariam, porque o vento
é o seu principal meio de transporte. Os danados, com uma perna só, usam o
vento para se locomoverem, em especial nos redemoinhos que se formam com muita
frequência por aqui. Sacis não fazem maldade, não são criaturas do mal, mas
também não são do bem. Passam o tempo todo fazendo traquinagens, folias, são
zombeteiros e não perdem a oportunidade de azucrinar a paciência dos seres
humanos. Como não melhorava, decidi visitar Dona Honória, famosa benzedeira que
há décadas atende a população aqui da cidade. Ela é uma velha sábia, acolhedora
e muito competente naquilo que faz. Ela tira como que por encanto, qualquer
maleficio que nos ataquem: tira quinzumba, ziquizila, nhaca, olho gordo, mal
olhado, inveja, espanta encostos de todos os tipos, inclusive urucubaca africana,
talvez a mais séria entre todas. Dona Honória, a falta de arruda, usou na
benzedura, uns grãos de milho, mergulhados em agua subterrânea fluida meia hora
antes do ritual. De uma chispa,
arregalou os olhos e sentenciou: Meu fio,
ocê ta cum maronha misturada com chunça e isso é mal sinal. Ocê num tá bem não...
Eu ouvi o diagnóstico com muito susto, pois jamais havia ouvido falar nessa
maldade que me acometia. Foram dois dias de extrema ansiedade, até que eu
voltasse à nova consulta, pois ela teria que consultar Dona Pomba, uma entidade
de esquerda, muito conhecida, mas que só
trabalha quando quer, de modos que nós os mortais, temos que nos sujeitar ao
seu humor e desejos. Dona Honária foi logo falando: pois é zinfio, a maronha é mema coisa qui angústia de vivê. E
chunça é medo du futuro, é insegurança.
Ocê ta memo é cum precisão de arranjá uma encrenca pra ti dá responso. Vai
nu futin que o piciricu aparece. Us
fantasma, os saci vão imbora dipressinha. Duas semanas depois, o velho Dito, que também
é ligado a essas coisas, me esclareceu. Eu estava sofrendo de angustia de viver
e com muitas incertezas, estava com medo do futuro. Era só ir passear que um
namorico aconteceria. Eu estava precisando de motivação, aconchego e aprender a
lidar com chamego de uma dona, o que me
devolveria o bem estar.
Estou indo ao footing todos os dias. Estou sentindo melhoras. Quem
sabe.....eu encontro o remédio de uma vez por todas.....Dona Honória é
infalível.
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